Residência artística e espetáculo celebraram a liberdade com a participação da comunidade mortaguense
O Centro de Animação Cultural foi palco, no passado dia 14, do espetáculo “Estado da Arte - Como Novo”, integrado no programa das comemorações dos 50 anos do 25 de abril que o Município de Mortágua está a promover ao longo deste ano.
Em palco, Beatriz Lourenço (natural de Mortágua) e Samuel Dias, criadores do projeto, partilham as suas frustrações e os sonhos de poderem criar a sua arte em liberdade, de se exporem plenamente, física, psicológica e intelectualmente, perante o público, sem a autocensura imposta pelas regras do regime em nome de uma suposta moral e ordem social.
Através de canções e diálogos intensos exploram temas como a condição da mulher, a censura, opressão, identidade e resistência. Neste espetáculo não pretenderam encenar o passado mas dar voz àqueles que viveram este período, e homenagear os que em tempos de escuridão ousam sonhar com a luz da liberdade.
A apresentação, em estreia absoluta, resultou de uma residência artística na qual os autores trabalharam com a comunidade local, ouvindo histórias, recolhendo testemunhos, partilhando experiências, que serviram para construir o guião do espetáculo. Três mortaguenses, Tino Lobo, Toni Nobre e Helena Nobre, partilharam em palco algumas histórias vividas, recordando a miséria que grassava na população e a angústia da Guerra Colonial, levando filhos para um destino incerto. Foram também lidos dois textos, um excerto de uma conferência proferida por Tomás da Fonseca, um destacado mortaguense que lutou contra a ditadura, e um poema intitulado ”Havemos de voltar” de Agostinho Neto, símbolo da libertação e independência de Angola.
Numa gravação áudio, foram lembradas as proibições e interdições, antes do 25 de abril, que incidiam sobre a exibição de espetáculos (teatro, cinema e outros), e até sobre os próprios espetadores a nível de comportamento.
No final do espetáculo, o Presidente da Câmara Municipal, Ricardo Pardal, agradeceu aos dois atores e dirigiu uma palavra especial à atriz Beatriz Lourenço, uma filha da terra e coautora deste projeto. Deixou uma palavra de apreço aos mortaguenses que colaboraram e participaram neste espetáculo/residência artística, partilhando a sua história de vida no tempo da ditadura. “Hoje celebramos mais uma vez a liberdade em Mortágua. Fomos um concelho que se distinguiu na luta contra a ditadura, o único concelho do distrito em que Humberto Delgado ganhou as eleições presidenciais de 1958, e continuamos a honrar e a perpetuar esse legado, com muito orgulho”, afirmou.
No átrio de entrada do Centro de Animação Cultural estiveram expostos vários livros sobre as figuras de Norton de Matos, Humberto Delgado, sobre a Revolução do 25 de abril, além da letra da canção “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho, e uma das senhas da Revolução de Abril.
As comemorações dos 50 anos do 25 de abril vão prosseguir. O “Concerto da Liberdade”, no dia 14 de Agosto, inserido nas festas da “Mortágua Viva”, e que vai juntar em palco Sérgio Godinho com a Filarmónica de Mortágua, as exposições “O legado de um cravo” e “Mulheres e Resistência”, ambas da responsabilidade do Museu do Aljube, o ciclo de cinema “25 de abril em curtas”, marcam a agenda das comemorações até ao mês de novembro. A cerimónia oficial de encerramento decorrerá no mês de novembro, com um evento a anunciar.

