Município acolhe residência artística baseada nos heterónimos de Fernando Pessoa
“Comboio de Corda” é o espetáculo que irá nascer desta residência artística que quer dar corpo e voz aos heterónimos e poemas de Fernando Pessoa, um dos mais proeminentes e icónicos escritores portugueses. As autoras e protagonistas deste projeto são Beatriz Lourenço e Neide Simões, duas jovens atrizes de Mortágua, que dez anos depois voltam a estar juntas em palco.
Os ensaios decorrem no espaço do Centro de Animação Cultural e estão na sua fase final. O título “Comboio de Corda” é retirado de um verso do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa, em que o coração é descrito como um comboio de corda que tem a função de distrair ou divertir a razão.
A peça propõe uma visão diferente dos três heterónimos mais conhecidos, Álvaro Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, e de Pessoa ele-próprio (ortónimo), “quase como se fossem diferentes personalidades da mesma pessoa”, adianta Neide Simões. “Os poemas que nós escolhemos seguem um encadeamento, uma linha narrativa, do princípio ao fim do espetáculo, e consoante a interpretação, a cadência, a densidade, haverá uma expressão física nesse mesmo ritmo”, explica.
Beatriz Lourenço esclarece que não se trata de teatralizar os poemas. “Isto não é um típico espetáculo de teatro em que há falas e personagens, uma representação ou encenação. Aqui o que nós pretendemos fazer é juntar o movimento, o corpo e a voz aos poemas”. Neste espetáculo mantem-se fiéis aos textos de Fernando Pessoa: “não alterámos ou adicionámos coisa alguma em relação ao que foi escrito pelo autor, o que fizemos foi criar uma linha narrativa, para haver uma certa lógica”.
Para a construção do espetáculo tiveram de fazer pesquisas sobre o poeta, ouvir pessoas e ler os poemas, muitas vezes, “na demanda de conseguir imaginar como seria cada um dos heterónimos, porque não temos uma caracterização física, postural, de cada um deles”, diz Neide Simões. É esse trabalho de imaginação, a partir da interpretação dos poemas, que constitui o desafio. “Vamos dar corpo e voz aos heterónimos, mas sem a sua caracterização física”, explica Beatriz Lourenço.
Este espetáculo foi concebido sobretudo para a comunidade escolar, principalmente para os alunos do Secundário, que estudam Fernando Pessoa no seu programa curricular. “Os heterónimos são ensinados como personagens que nunca têm voz, nunca têm corpo. O desafio que propomos é de imaginar como seria cada heterónimo, é dar corpo e voz a Fernando Pessoa, é uma materialização de cada um desses heterónimos”, diz Neide Simões.
As atrizes fazem no entanto questão de sublinhar que este “é um espetáculo para o público em geral, para todos aqueles que têm curiosidade ou interesse na obra, personalidade e vida de Fernando Pessoa”. A estreia do espetáculo vai acontecer em Mortágua e está agendada para o mês de novembro.
A residência artística conta com o apoio do Município de Mortágua (cedência do espaço para os ensaios) e da Fundação GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas) a nível da itinerância do espetáculo pelo país.
Este é o segundo projeto de residência artística que é apoiado pelo Município no corrente ano. A primeira residência artística aconteceu no mês de Julho passado, da qual resultou o espetáculo ”Estado da Arte - Como Novo”, numa criação de Beatriz Lourenço e Samuel Dias e com envolvimento da comunidade mortaguense. Tendo como tema central a censura aos Artistas e às Artes no período do Estado Novo, integrou o programa municipal das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.
Beatriz Lourenço formou-se em Teatro e em Produção e Gestão Cultural. Neide Simões desenvolve projetos de desenvolvimento de inteligência emocional com crianças e jovens.
Esta é a segunda vez que estão juntas no mesmo palco, depois de uma primeira experiência há cerca de 10 anos. Une-as uma grande amizade e cumplicidade, além da paixão comum pela arte de representar.

