Duas atrizes mortaguenses dão voz e corpo a heterónimos e poemas de Fernando Pessoa
O Centro de Animação Cultural acolheu no passado dia 22 o espetáculo “Comboio de Corda”. As autoras e protagonistas deste original projeto são Beatriz Lourenço e Neide Simões, duas jovens atrizes de Mortágua, que decidiram dar vida aos textos de um dos mais proeminentes escritores portugueses.
O ponto de partida foi uma residência artística em Mortágua, iniciada em agosto, que serviu para a conceção e construção do espetáculo e ensaios. O título é retirado de um verso do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa, em que o coração é descrito como um comboio de corda que tem a função de distrair ou divertir a razão.
A peça propõe uma visão diferente dos três heterónimos mais conhecidos, Álvaro Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, e de Pessoa ele-próprio (ortónimo). Neide Simões dá voz aos poemas e Beatriz Lourenço dá corpo e movimento, cruzando fios numa estrutura de madeira, com diferentes tensões, como se fossem o desenrolar das linhas de pensamento de cada heterónimo. Duas obras de arte, um coração e um cérebro, completam o cenário, representando as diferentes personalidades dos heterónimos.
Este espetáculo foi primeiro apresentado para a comunidade escolar de Mortágua (alunos do 11º e 12º ano do Agrupamento de Escolas) e depois para o público em geral, nos dias 21 e 22 de novembro, respetivamente.
“Este espetáculo talvez sirva para simplificar estes três heterónimos mais conhecidos, não há ninguém que não se reveja em cada um deles, em partes diferentes da sua vida e até em dias diferentes. A maneira como nós os interpretamos aproxima as pessoas a identificarem-se com aquilo que é dito, e não verem só os poemas numa folha impressa. Agora há uma voz, um ritmo, uma interpretação visual e sonora dos poemas”, explicou Neide Simões.
A Vereadora da Cultura, Ilda Matos, esteve presente e felicitou as duas jovens mortaguenses “pela excelente representação, pela originalidade e criatividade do projeto”, que torna Fernando Pessoa mais acessível. “É gratificante ver o que conseguimos fazer pela cultura em Mortágua, ainda mais tendo em palco duas jovens conterrâneas com enorme talento”, afirmou.
O projeto contou com o apoio do Município de Mortágua (cedência do espaço do Centro de Animação Cultural para a residência artística, ensaios e espetáculo), e da Fundação GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas) no âmbito do programa Circulação de Espetáculos.
O espetáculo vai para a estrada, tendo já várias datas agendadas para 2025.
Beatriz Lourenço, 26 anos, vive em lisboa, onde trabalha como atriz, performer e dá aulas de teatro. Formou-se em Teatro e descobriu o mundo da produção, onde se especializou, estando agora tambem a trabalhar como produtora e gestora cultural na estrutura artística Casa Cheia.
Neide Simões, 34 anos, é formada em Teatro e co-fundadora da Escola de Teatro de Mortágua. Protagonizou o monólogo “Maria sem lugares” que esteve em cena durante dois anos. Especializou-se em inteligência emocional e tem percorrido o país com projetos nesse âmbito e com workshops de expressão e comunicação, todos para crianças.

