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Comemorações do 25 de abril. “Revolução dos Livros” teve como convidado o Padre Mário de Oliveira

2018-04-24
Fonte: Câmara Municipal de Mortágua

No âmbito das comemorações do 25 de Abril, promovida pelo Município de Mortágua, teve lugar no passado dia 20, na Biblioteca Municipal, a iniciativa “À Conversa com o Padre Mário de Oliveira”, figura conhecida do grande público. A presença do orador inseriu-se na “Revolução dos Livros”, uma exposição patente na Biblioteca Municipal, constituída por livros sobre o 25 de Abril e a libertação dos povos a nível internacional.

Antes do início da conversa, o Vereador da Cultura, Paulo Oliveira, deu as boas vindas ao convidado, lembrando que esta era a sua segunda presença em Mortágua, a primeira tinha ocorrido o ano passado, aquando das comemorações dos 140 anos do nascimento do escritor mortaguense Tomaz da Fonseca, promovidas pela Biblioteca Municipal. E referiu que nesta “Revolução dos Livros”, Tomaz da Fonseca também está no nosso pensamento, enquanto símbolo de Liberdade, apontando algumas semelhanças de percurso com o orador convidado, também ele perseguido pelo regime fascista. A “liberdade dos livros”, disse, significa a liberdade de expressão, de emitir ideias e opiniões diferentes, e sem essa liberdade não há democracia. E afirmou que o Padre Mário de Oliveira faz parte também dessa “Revolução dos Livros” e da luta pela liberdade.

Tem quase 50 obras publicadas, entre as quais “Evangelho no Pretório”, editada recentemente, e na qual relata as suas origens, a sua ordenação, e os episódios que viveu durante o regime do Estado Novo, que visaram eliminar uma voz politicamente incómoda, inconformada, rebelde e dissidente face ao status quo.

Nesta conversa aberta, o Padre Mário de Oliveira referiu-se às duas vezes em que esteve preso, em Caxias, durante sete e onze meses, respetivamente, por alegadas razões políticas. O regime do Estado Novo considerava-o uma figura incómoda e subversiva, as suas homílias eram vigiadas pela PIDE e todas as suas palavras eram escrutinadas, na busca de qualquer pretexto que servisse uma acusação formal.

Em 1967 e contra a sua vontade, foi nomeado capelão militar na Guiné, onde partilha as dores e angústias dos militares, condena a guerra e convida os militares a refletirem sobre o significado da sua presença naquelas terras estranhas.

A gota de água foi a célebre homília na missa do Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 1968, na qual defende abertamente o direito dos povos colonizados à sua autonomia e independência, e alerta que só assim se atingiria a verdadeira paz, não uma paz imposta pelas armas de um Estado colonizador. Confrontado pelo Comandante do Batalhão de que a mensagem da sua homilia violava a Constituição, que ele, militar de carreira, jurara defender, respondeu: “Pois então, meu Comandante, mudem a Constituição, porque eu não posso mudar o Evangelho”. Acusado de atividades subversivas que mais não eram do que a defesa, intransigente, do Evangelho de Jesus, dirá, em sua defesa.

O destino estava traçado. Começava a via-sacra do calvário do Padre Mário. “Padre irrecuperável”, diria o Bispo castrense. “Instigou os militares, presentes ou não nas fileiras, a praticar atos de rebeldia e à desobediência às ordens e leis militares”, ler-se-ia no rol de acusações no Tribunal Plenário.

Depois de duas prisões politicas em Caxias (1970 e 1973) e outros tantos julgamentos no Tribunal Plenário do Porto, é-lhe retirado o ofício pastoral pelo Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, sacrificando o pároco e salvando a Concordata, num ato político. Passa à qualidade de presbítero sem ofício canónico, “sem paróquia nem altar”. Tudo decorre sem ser consultado, sem decreto canónico de exoneração ou julgamento em tribunal eclesiástico.

O testemunho deste e outros episódios está no seu livro autobiográfico “Evangelho do Pretório”. Curiosamente, o título foi buscá-lo ao então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que no dia em que teve lugar a leitura do acórdão do Tribunal Plenário do Porto, convidou o Padre Mário e o seu advogado Dr. José da Silva para um jantar na casa-palácio-episcopal, para comemorar o momento, que ditou a sua absolvição.

D. António Ferreira Gomes sugeriu que fosse escrito um livro que registasse aquele acontecimento histórico sem precedentes na Igreja Católica Portuguesa. Um feito de tamanha grandeza e significado, merecia ficar registado em livro, para memória futura. António Ferreira Gomes explicou a razão para esse título: “é que, dois mil anos depois, o Evangelho voltou de novo ao Pretório (Tribunal de Pilatos, representante de Jerusalém do Império Romano) e, desta vez, saiu absolvido.” O mesmo bispo que exultou com a sua libertação, três anos mais tarde haveria de o afastar do ministério pastoral.

O livro haveria de ser editado na época (conforme sugestão do Bispo) mas com um título mais interrogativo e menos afirmativo; “Subversão ou Evangelho?”. Mas aquela frase do Bispo do Porto ficou sempre na memória do padre Mário de Oliveira, que o resgatou para este livro, passados quase 50 anos.

Até aos dias de hoje o Padre Mário de Oliveira considera-se vítima de um assassinato simbólico, politico e cívico, movido pelo regime, com a passividade e cumplicidade da Igreja. A suspensão de pároco nunca foi levantada e viu-se impedido de exercer o ofício pastoral junto dos seus paroquianos. O 25 de Abril deu-lhe a liberdade mas o direito canónico não o reabilitou. Dedicou-se ao jornalismo, integrou as redações dos jornais República, Página Um e Correio do Minho, sendo diretor do jornal “Fraternizar” desde a sua fundação (1988).

Admirado por uns e ostracizado por outros, a vida do Padre Mário de Oliveira tem sido marcada pela coragem, integridade, e o escrupuloso sentido de agir em conformidade com a sua consciência e os valores que defende.

“Somos filhos do Vento”, vento que rebenta todas as amarras, derruba todos os palácios e santuários, o mesmo é dizer, somos Liberdade, escreve. Por vocação e chamamento quis ser padre, mas tornou-se um padre diferente, que escolheu ser presbítero e ser o mais humano entre outros humanos.

As comemorações do 25 de abril prosseguem hoje, com o espetáculo “Muito Riso, Muito Siso”, pelas 21h30, no Centro de Animação Cultural, e no dia 25 com a exibição do filme “Capitães de Abril”, realizado por Maria de Medeiros. A entrada para o espetáculo e para a sessão de cinema é gratuita.


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